As Palavras De Saramago

03/09/2016 17:36

A intervenção na esfera pública constitui um dos traços centrais do perfil
intelectual de José Saramago, um escritor que sempre recusou qualquer torre de
marfim, e se manteve distante da introversão. “Aonde vai o escritor, vai o cidadão”,
costumava reiterar, resoluto, desfazendo qualquer dúvida eventual sobre seu
compromisso civil, assumido como imperativo cívico, emanante tanto de suas
convicções políticas quanto da impregnação humanista — nihil humanum puto
alienum mihi — que filtrava com brio pelo tecido da sua estrutura cultural e da sua
musculatura de incansável e vigoroso polemista. Como acontecera com Albert Camus,
não é possível desagregar a escrita de seus princípios em face das circunstâncias da
realidade, quaisquer que sejam as consequências que decorram desse fato. O autor
concentra, sem fissuras, na pessoa que é, o feixe de obrigações derivado de seus atos,
tanto os específicos à literatura, como os próprios do exercício da cidadania ou os
concernentes à vida pura e simples, porque, para Saramago, “a obra é o romancista”, e
o romancista resulta da projeção da pessoa que o anima. Desse modo, a
responsabilidade — também sua variante consanguínea, concretizada num arraigado
senso do dever — afirma uma das categorias que ajudam a definir seu caráter,
marcando o conjunto de valores que orientaram sua conduta ética, mas também seu
fazer criativo e reflexivo.

“A obra é o romancista”, afirmou algumas vezes Saramago, que escrevia para
dizer quem era. Por isso, não se deve estranhar que a instância do autor-narrador
— tão complexa e rica tecnicamente — surja em cada uma de suas obras como uma
potente maquinaria capaz de marcar tanto o caráter da ficção como sua própria
personalidade literária. Empenhado em negar a existência do narrador
convencional — ao qual, se existir, ele reservava o papel delimitado de uma
personagem a mais, mas nunca o do condutor de uma orquestra —, atribuía a si
mesmo a responsabilidade da elocução, porque o livro — assegurava — conteria
sobretudo uma pessoa, um grito vital concreto, que por direito corresponde ao autor
de carne e osso, único dono da história que se conta.
Em seus romances, o autor-narrador se transforma numa figura central,
vigorosa e totalizadora. É capaz de reordenar subjetivamente a temporalidade,
amalgamando sua própria circunstância ao ciclo dos fatos relatados, de interferir
no curso do relato mediante digressões maiores, de se sobrepor às lógicas da
continuidade espacial, de interpelar o leitor e estabelecer cumplicidades com ele, de
dissentir e opinar ou governar as criaturas de suas obras, administrador de um
conhecimento que transborda tanto a cronologia como a informação estrita dos
acontecimentos referidos. Através de sua mediação expande-se pelo livro uma
prodigiosa liberdade fabuladora, mas também um compromisso explícito com a
palavra e com seus conteúdos, expressão, em suma, da responsabilidade com que
Saramago assume a literatura: um narrador transfigurado em autor.

SAIBA MAIS, CLIQUE AQUI


Crie um site com

  • Totalmente GRÁTIS
  • Design profissional
  • Criação super fácil

Este site foi criado com Webnode. Crie o seu de graça agora!